A França enfrenta uma onda de protestos estudantis que se espalhou por diversas regiões do país e já provoca impactos no funcionamento das escolas. O movimento começou em setembro, inicialmente com manifestações de apoio a professores em greve, mas ganhou força e passou a envolver estudantes de várias cidades.
Centenas de escolas foram fechadas ou tiveram suas atividades afetadas. Segundo as informações divulgadas sobre os protestos, mais de 5 mil pessoas foram detidas, em sua maioria menores de idade sem antecedentes criminais. Estudantes, professores e policiais também ficaram feridos durante os confrontos.
Entre os casos mais graves está o de um estudante de Lens, no nordeste da França, que perdeu uma das mãos após, segundo relatos, pegar uma granada. Em Tours, outro estudante perdeu a visão de um olho.
Como os protestos começaram
A mobilização teve início em 21 de setembro, na escola Saint-Exupéry, em um subúrbio ao norte de Paris. Os alunos se juntaram aos professores para reivindicar mais funcionários e recursos para a instituição.
Mesmo depois que as demandas daquela escola foram atendidas e novos profissionais foram enviados, o movimento continuou e se espalhou rapidamente.
Estudantes passaram a bloquear entradas de escolas em Paris e arredores. Em seguida, manifestações semelhantes foram registradas em cidades como Lille e Marselha.
Imagens de barricadas, incêndios em lixeiras e confrontos com agentes de segurança aumentaram a tensão. Mais de 100 escolas teriam sofrido danos desde o início da mobilização.
Também surgiram denúncias de uso excessivo da força policial. Em Alençon, um agente foi filmado aplicando um golpe conhecido como “mata-leão” em uma jovem, técnica que é proibida por lei no país.
Reclamações antigas
Por trás da mobilização estão reivindicações relacionadas às condições do sistema educacional francês. Estudantes e professores reclamam de salas superlotadas, falta de funcionários, recursos insuficientes e aulas canceladas devido à ausência de professores substitutos.
O aumento no número de estudantes após a elevação da natalidade registrada em 2010 também contribuiu para pressionar a estrutura das escolas.
Atualmente, o ensino médio francês possui menos professores do que em 2008, apesar de contar com aproximadamente 250 mil alunos a mais. No sistema público, cerca de 70% das salas de aula têm mais de 30 estudantes.
Governo enfrenta pressão
A resposta do governo francês também passou a ser alvo de críticas. Inicialmente, as autoridades concentraram parte das atenções na atuação do partido de esquerda radical La France Insoumise (LFI), liderado por Jean-Luc Mélenchon, que defende o direito dos estudantes de protestar.
Com a escalada dos confrontos, o governo aumentou a presença policial e passou a destacar os prejuízos provocados pelas manifestações. Apenas na região metropolitana de Paris, os danos causados às escolas são estimados em 7 milhões de euros, aproximadamente R$ 39 milhões.
O ministro da Educação, Edouard Geffray, reuniu-se na sexta-feira (2) com representantes estudantis, mas não houve acordo. Os líderes do movimento convocaram uma nova mobilização nacional para esta terça-feira (6).
Ao mesmo tempo, o governo enfrenta dificuldades para equilibrar as contas públicas e elaborar o orçamento de 2027. A situação financeira limita a capacidade de ampliar investimentos no sistema educacional enquanto aumentam as pressões por mais recursos.
Protestos ganham dimensão política
A dimensão dos protestos também passou a gerar repercussões políticas. O movimento ocorre em um cenário de crescente polarização na França, com forças políticas de diferentes correntes tentando se posicionar diante das manifestações.
A história do país também aumenta a atenção sobre a mobilização. Em maio de 1968, protestos estudantis deram origem a uma das maiores greves da história francesa e provocaram uma profunda crise política e social.
Agora, os estudantes voltam às ruas com reivindicações que, segundo seus representantes, estão relacionadas a condições básicas para o funcionamento das escolas.
A expectativa é de que as próximas mobilizações indiquem se o movimento continuará crescendo e qual será a resposta do governo diante da pressão nas ruas.

