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Política externa: veja como Lula e Flávio Bolsonaro propõem posicionar o Brasil no cenário internacional

Os planos de governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para as eleições de 2026, apresentam visões diferentes sobre a atuação do Brasil no cenário internacional entre 2027 e 2030.

Os documentos abordam temas como relações diplomáticas, comércio exterior, defesa nacional, mudanças climáticas, integração regional e participação em organismos internacionais. Embora ambos mencionem soberania nacional, desenvolvimento econômico e proteção dos interesses brasileiros, as estratégias propostas apresentam diferenças importantes.

Diplomacia e relações com outros países

Lula propõe manter uma política externa ativa, com participação em organismos multilaterais e ampliação das relações com diferentes regiões do mundo. O plano defende a autonomia brasileira nas decisões internacionais, a solução pacífica de conflitos, a cooperação entre os povos e o respeito ao direito internacional.

O documento também prevê aprofundar as relações com países da África, da Ásia e do Oriente Médio, além de fortalecer parcerias com a Europa e outras regiões. A proposta é ampliar a cooperação política, econômica, científica, tecnológica e cultural, sem subordinar as decisões brasileiras aos interesses de outras potências.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, propõe uma diplomacia orientada pelo que classifica como pragmatismo e interesse econômico nacional. O plano defende negociações com diferentes parceiros, incluindo China, União Europeia, Estados Unidos e mercados asiáticos, independentemente de afinidades ideológicas entre governos.

O candidato também propõe reaproximar o Brasil de países como Argentina, Estados Unidos e Israel, cujas relações com o governo atual são descritas no documento como desgastadas. Essa avaliação faz parte da argumentação apresentada pela própria candidatura.

Mercosul, BRICS e integração internacional

A integração regional ocupa espaço importante no plano de Lula. O candidato propõe aprofundar o Mercosul e fortalecer a cooperação entre os países sul-americanos em áreas como infraestrutura, defesa, segurança pública, energia e saúde.

O documento também prevê ampliar as conexões de transporte com o Pacífico e o Caribe, desenvolver um mercado comum sul-americano de energia e fortalecer a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA). Entre os objetivos estão a cooperação científica, o financiamento verde e o combate conjunto a atividades ilícitas transnacionais na região amazônica.

No âmbito mundial, Lula defende ampliar a participação do Brasil no BRICS, no G20 e em iniciativas de cooperação entre países em desenvolvimento, conhecidas como Cooperação Sul-Sul.

O plano também propõe reformas na Organização das Nações Unidas (ONU), especialmente no Conselho de Segurança, para aumentar a representação de países em desenvolvimento. Na Organização Mundial do Comércio (OMC), defende recuperar mecanismos de solução de controvérsias e considerar as necessidades específicas dessas economias. O documento ainda prevê mudanças na governança do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, além do fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento, ligado ao BRICS.

Flávio Bolsonaro enfatiza a ampliação de acordos comerciais e a aproximação com os principais polos econômicos e tecnológicos do mundo. Nas páginas dedicadas às relações internacionais, o plano não cita nominalmente o BRICS, a OTCA ou o Mercosul como eixos específicos de sua estratégia, concentrando a abordagem na abertura comercial, na atração de investimentos e na integração às cadeias globais de produção.

Combate à fome e à pobreza no cenário internacional

Lula propõe dar continuidade à Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, iniciativa que o plano apresenta como uma das principais frentes de atuação internacional do Brasil.

O documento prevê ampliar a cooperação técnica com países em desenvolvimento, especialmente na África e na América Latina, para fortalecer políticas de segurança alimentar e combater a pobreza. A proposta está vinculada à defesa de uma atuação internacional que associe desenvolvimento econômico, redução das desigualdades e políticas sociais.

O programa também estabelece como prioridade avançar na implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e participar das discussões sobre uma nova agenda global de desenvolvimento para o período posterior a 2030.

Nas páginas de política externa do plano de Flávio Bolsonaro, não há uma proposta identificada com o mesmo nome ou formato da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza. O documento concentra suas diretrizes internacionais na ampliação do comércio, na competitividade da economia brasileira e na atração de investimentos, incluindo setores considerados estratégicos.

COP30, mudanças climáticas e financiamento ambiental

A diplomacia climática é um dos temas centrais do plano de Lula. O documento destaca a realização da COP30 em Belém e propõe manter o Brasil como participante ativo das negociações internacionais sobre o aquecimento global, a redução de emissões e o financiamento de medidas de adaptação às mudanças climáticas.

O programa também prevê dar continuidade à estruturação do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), mecanismo apresentado pelo governo como instrumento para financiar a conservação de florestas tropicais. Segundo o plano, a iniciativa deverá avançar na implementação de suas estruturas de governança para viabilizar os investimentos.

Outra diretriz é fortalecer mecanismos internacionais de financiamento climático e articular conservação ambiental com desenvolvimento sustentável. O documento menciona ainda o Fundo Clima, o Fundo Amazônia e a Plataforma Brasil de Investimentos Climáticos no conjunto de instrumentos voltados à transformação ecológica.

O plano de Flávio Bolsonaro não menciona nominalmente a COP30 ou o TFFF nas páginas dedicadas às relações internacionais. A estratégia apresentada para a área climática, nesse trecho, está associada principalmente à atração de investimentos e à competitividade brasileira na transição energética.

O candidato estabelece como meta posicionar o Brasil, até 2030, entre os principais destinos mundiais de investimentos em transição energética, citando biocombustíveis, energia solar, energia eólica e hidrogênio verde. O plano também defende o uso da diplomacia para ampliar acordos e oportunidades de investimento nesses setores.

Defesa nacional e indústria militar

A defesa nacional aparece nos dois documentos, mas com níveis diferentes de detalhamento sobre a estrutura industrial e tecnológica do setor.

Lula propõe fortalecer a Base Industrial e Tecnológica de Defesa, com o objetivo de ampliar a autonomia nacional na produção de equipamentos militares e no desenvolvimento de tecnologias estratégicas.

O plano relaciona esses investimentos à modernização das Forças Armadas, à geração de empregos qualificados, à inovação e ao aumento das exportações de maior valor agregado. Também prevê maior previsibilidade orçamentária para dar continuidade aos projetos de defesa.

Entre as outras medidas estão o fortalecimento da defesa cibernética, a produção de tecnologias próprias, a proteção de infraestruturas críticas e o aprimoramento da inteligência de Estado, com previsão de controle democrático e respeito aos direitos fundamentais. A proposta também aborda a vigilância de fronteiras e a proteção da Amazônia e da chamada Amazônia Azul, área marítima sob jurisdição brasileira.

Flávio Bolsonaro propõe investimentos nas Forças Armadas compatíveis com a atuação internacional do Brasil e com os desafios de segurança nacional. O plano cita o desenvolvimento e o uso de tecnologias como drones e inteligência artificial no enfrentamento ao crime organizado e a outras ameaças.

Embora também trate da soberania nacional e da defesa, o trecho dedicado às relações internacionais enfatiza a modernização tecnológica e a adequação dos investimentos militares, sem detalhar um programa de fortalecimento da indústria de defesa com o mesmo nível de especificação apresentado no plano de Lula.

Abertura comercial e adesão à OCDE

A abertura da economia e a ampliação do comércio exterior estão entre as principais propostas internacionais de Flávio Bolsonaro.

O candidato defende retomar o cronograma de adesão do Brasil à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O plano associa o processo à aproximação das normas brasileiras a padrões internacionais, à melhoria da governança das empresas estatais e ao aumento da previsibilidade para investidores.

Outra proposta é ampliar o acesso das empresas brasileiras a bens de capital, tecnologia e insumos importados, por meio da abertura comercial. O documento também prevê um plano nacional para integrar o Brasil às cadeias globais de valor, com prioridade para agroindústria, minerais críticos, saúde e economia digital.

O programa pretende apoiar a internacionalização de pequenas e médias empresas por meio do BNDES e da ApexBrasil, além de fortalecer multinacionais brasileiras e ampliar sua presença nos mercados externos.

Lula também propõe abrir novos mercados e ampliar acordos comerciais, mas enfatiza a integração regional e o fortalecimento do multilateralismo. O plano menciona a conclusão de acordos envolvendo o Mercosul, a União Europeia, a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA) e Singapura, além de registrar a abertura de novos mercados para produtos brasileiros durante o atual governo.

A proposta é aprofundar essa estratégia e defender as exportações brasileiras com base nas regras internacionais de comércio, buscando diversificar parceiros e ampliar a participação do país em mercados de diferentes regiões.

Quais são as principais diferenças?

Os dois planos defendem a soberania nacional, a ampliação das relações internacionais e a criação de oportunidades econômicas para o Brasil. As diferenças aparecem nas prioridades e nos instrumentos propostos.

Lula enfatiza o multilateralismo, a integração sul-americana, o fortalecimento do BRICS e de organismos internacionais, a cooperação Sul-Sul, a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza e a diplomacia climática associada à COP30 e ao TFFF. Na defesa, propõe fortalecer a indústria nacional e ampliar a autonomia tecnológica.

Flávio Bolsonaro concentra sua estratégia internacional na diplomacia pragmática voltada ao interesse econômico, na reaproximação com parceiros tradicionais, na adesão à OCDE, na abertura comercial e na integração às cadeias globais de valor. Na defesa, destaca investimentos nas Forças Armadas e o uso de novas tecnologias para enfrentar ameaças à segurança nacional.

As propostas são compromissos de campanha, e não garantias de execução. A implementação dependerá de negociações diplomáticas, condições econômicas, disponibilidade orçamentária e, quando necessário, de decisões legislativas e acordos internacionais.

Consulte os planos de governo na íntegra

Os documentos oficiais estão disponíveis no Tribunal Superior Eleitoral (TSE):

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