Os planos de governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para as eleições de 2026, apresentam propostas para o desenvolvimento da agricultura brasileira, o fortalecimento do agronegócio e a preservação ambiental.
Os documentos abordam temas como financiamento rural, agricultura familiar, regularização de terras, produção de biocombustíveis, mercado de carbono e controle do desmatamento. Embora os dois candidatos relacionem a preservação ambiental ao desenvolvimento econômico, eles apresentam diferenças na forma de financiar a atividade rural e organizar as políticas ambientais.
Agricultura familiar e crédito rural
Lula propõe ampliar o Plano Safra da Agricultura Familiar e fortalecer o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), com juros compatíveis com o perfil dos produtores e prioridade para alimentos da cesta básica.
O plano também prevê linhas de crédito específicas para jovens agricultores, mulheres, cooperativas e associações rurais, além de recursos para agroecologia, produção orgânica e sociobiodiversidade. A proposta inclui facilitar o acesso ao financiamento por meios digitais e reduzir a burocracia.
Entre as outras medidas estão a ampliação da assistência técnica e extensão rural, o fortalecimento do programa Mais Alimentos, o incentivo à mecanização de pequenas propriedades e a ampliação do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que permite ao poder público comprar produtos da agricultura familiar.
Flávio Bolsonaro concentra suas propostas para o campo na ampliação do seguro rural, na reorganização das dívidas dos produtores e no aumento da capacidade de armazenamento das safras. O objetivo declarado é oferecer maior previsibilidade financeira, reduzir perdas e permitir que os agricultores tenham melhores condições para planejar a produção.
O candidato também propõe estimular a produção nacional de fertilizantes, utilizando recursos minerais disponíveis no país, como potássio e fosfato, para diminuir a dependência externa.
Outra medida é ampliar a irrigação, simplificar a autorização para uso da água e desenvolver polos irrigados no Matopiba — região que abrange partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — e no semiárido nordestino. O plano também prevê ampliar o uso de água de reúso durante períodos de estiagem.
A diferença está na ênfase: Lula destaca o crédito direcionado à agricultura familiar, a assistência técnica e a produção sustentável de alimentos, enquanto Flávio prioriza o seguro rural, a infraestrutura produtiva, a irrigação e a previsibilidade financeira para os produtores.
Agronegócio, sustentabilidade e segurança alimentar
O programa de Lula prevê ampliar os recursos do crédito rural e do Plano Safra, com juros compatíveis com a rentabilidade da atividade agropecuária. O financiamento deverá apoiar máquinas, equipamentos, sistemas de irrigação e tecnologias para aumentar a produtividade.
O plano também propõe diversificar as fontes de financiamento do setor, incluindo instrumentos do mercado de capitais, e simplificar os procedimentos para a contratação de crédito. A intenção é combinar aumento da produção, modernização tecnológica e sustentabilidade ambiental.
No documento de Flávio Bolsonaro, o agronegócio é apresentado como estratégico para a segurança alimentar, as exportações e a geração de empregos. Além das propostas de crédito e seguro rural, o candidato defende a ampliação do armazenamento de safras e medidas diplomáticas para enfrentar restrições comerciais impostas por outros países a produtos brasileiros.
O plano também prevê fortalecer a produção nacional de fertilizantes e ampliar a regularização de propriedades rurais, relacionando a segurança jurídica ao acesso ao crédito e aos investimentos no campo.
Reforma agrária e regularização fundiária
Lula propõe avançar na reforma agrária por meio do assentamento de famílias acampadas, da estruturação dos assentamentos existentes e da ampliação do acesso ao crédito fundiário.
O plano também prevê acelerar a regularização de terras, especialmente na Região Norte, além de ampliar a titulação de territórios quilombolas e a regularização de áreas ocupadas por povos e comunidades tradicionais. Outra iniciativa é fortalecer o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), com acesso ao ensino técnico e superior para populações do campo.
Flávio Bolsonaro propõe retomar o ritmo de emissão de títulos rurais e ampliar a regularização e a titulação de pequenas propriedades. O documento relaciona a formalização da propriedade à possibilidade de contratar crédito e investir com maior segurança jurídica.
A proposta também enfatiza a proteção do direito de propriedade e a necessidade de combater ocupações ilegais de terras públicas.
Os programas apresentam abordagens distintas para a questão fundiária. Lula prevê ampliar os assentamentos e o crédito fundiário, enquanto Flávio enfatiza a titulação de propriedades e a segurança jurídica dos proprietários rurais.
Biocombustíveis e transição energética
Lula propõe fortalecer a Política Nacional de Transição Energética e ampliar a participação de combustíveis de baixa intensidade de carbono. O plano menciona etanol, biodiesel, biometano, combustível sustentável de aviação (SAF), diesel verde, combustíveis sintéticos e tecnologias de captura e armazenamento de carbono.
O programa também prevê aprimorar o RenovaBio, política que incentiva a redução da intensidade de carbono dos combustíveis, e estimular tecnologias de segunda e terceira geração. O documento relaciona a transição energética ao desenvolvimento industrial, com investimentos em baterias, hidrogênio de baixa emissão, bioprodutos e fertilizantes.
Flávio Bolsonaro também pretende transformar o Brasil em um produtor relevante de biocombustíveis. Seu plano inclui etanol, biodiesel, diesel renovável (HVO), SAF e biogás, além de linhas especiais de financiamento para empresas que transformam resíduos em energia.
O candidato propõe implementar as metas previstas em lei para o combustível sustentável de aviação a partir de 2027 e articular o Plano Safra com incentivos à produção de biomassa. O documento também defende ampliar o alcance internacional do RenovaBio, com a possibilidade de comercialização de créditos de carbono brasileiros no exterior.
Na transição energética mais ampla, Flávio busca atrair investimentos em energia solar, eólica e hidrogênio verde, enquanto Lula enfatiza uma estratégia nacional articulada entre diferentes fontes de energia e políticas industriais.
Desmatamento, queimadas e fiscalização ambiental
Uma das diferenças mais explícitas está nas metas relacionadas à vegetação nativa.
Lula reafirma o compromisso de alcançar desmatamento líquido zero até 2030. Para isso, o plano prevê a continuidade das ações de controle e prevenção do desmatamento, a implementação do Plano Nacional de Manejo Integrado do Fogo e a aplicação do Código Florestal e da Lei da Mata Atlântica.
O documento também prevê avançar na destinação de terras públicas para unidades de conservação, territórios indígenas e quilombolas ou assentamentos, além de fortalecer a regularização fundiária.
Flávio Bolsonaro estabelece como meta zerar o desmatamento ilegal até 2029. O plano prevê combater queimadas ilegais por meio de monitoramento, fiscalização e ações coordenadas entre órgãos públicos.
Entre os instrumentos mencionados estão inteligência artificial, imagens de satélite, bancos de dados em tempo real e integração de informações fundiárias e ambientais. O foco declarado é identificar e combater grilagem, ocupações ilegais de áreas públicas, extração ilegal de madeira, garimpo ilegal e outros crimes ambientais.
O documento também prevê ampliar a cooperação com países vizinhos contra crimes ambientais transfronteiriços e direcionar a fiscalização às áreas de maior pressão de desmatamento e queimadas.
As metas utilizam critérios diferentes: Lula menciona desmatamento líquido zero, enquanto Flávio especifica o fim do desmatamento ilegal. Por isso, os dois compromissos não são equivalentes e não devem ser interpretados como metas idênticas.
Mercado de carbono e financiamento ambiental
Lula prevê dar continuidade à estruturação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), criado por lei para estabelecer um mercado regulado de carbono no país. O objetivo é ampliar os instrumentos econômicos para reduzir emissões e incentivar a transformação da economia.
O plano também prevê manter e ampliar mecanismos de financiamento climático, como o Fundo Clima, o Eco Invest e o Fundo Amazônia. Outro instrumento mencionado é o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), apresentado no documento como uma iniciativa internacional para financiar a conservação das florestas tropicais.
Flávio Bolsonaro também propõe consolidar o mercado regulado de carbono, com foco na segurança jurídica e no posicionamento do Brasil como fornecedor internacional de ativos ambientais. O plano prevê ampliar o pagamento por serviços ambientais, com remuneração a produtores rurais, comunidades e proprietários que preservem a vegetação nativa, recuperem áreas degradadas ou protejam recursos hídricos.
A proposta associa a conservação ambiental à geração de renda e ao desenvolvimento da bioeconomia, incluindo produtos derivados da biodiversidade, como fármacos, cosméticos e novos materiais.
Enquanto Lula destaca fundos públicos e mecanismos de financiamento climático, além da implementação do sistema de comércio de emissões, Flávio dá ênfase aos incentivos econômicos à conservação e à possibilidade de gerar receitas por meio de ativos ambientais.
Quais são as principais diferenças?
Os dois planos apresentam propostas para ampliar a produção agrícola, fortalecer a segurança alimentar, incentivar energias renováveis e associar a conservação ambiental ao desenvolvimento econômico. As diferenças estão nas prioridades e nos mecanismos descritos.
Lula prioriza a expansão do Plano Safra da Agricultura Familiar, do Pronaf e da assistência técnica, além da reforma agrária, da agroecologia e de políticas públicas de conservação. Na área climática, estabelece a meta de desmatamento líquido zero até 2030 e prevê ampliar instrumentos de financiamento ambiental.
Flávio Bolsonaro enfatiza o seguro rural, a reorganização de dívidas, a infraestrutura de armazenamento, a irrigação e a titulação de pequenas propriedades. Na área ambiental, propõe zerar o desmatamento ilegal até 2029, ampliar a fiscalização com tecnologia e remunerar produtores e comunidades pela preservação.
As propostas são compromissos de campanha, e não garantias de execução. Sua implementação dependerá de orçamento, regulamentação, condições econômicas e decisões dos órgãos responsáveis.
Consulte os planos de governo na íntegra
Os documentos oficiais estão disponíveis no Tribunal Superior Eleitoral (TSE):

