Março marca o fim do verão no hemisfério Sul e, historicamente, é um mês bastante abafado no Brasil. A atmosfera e o oceano ainda concentram grande quantidade de calor acumulado ao longo da estação, o que favorece a formação de nuvens carregadas e pancadas típicas de fim de tarde.
Em Minas Gerais, as chamadas “águas de março” devem se prolongar neste ano. Apesar da fama de encerrar o período chuvoso, a tendência é que as precipitações avancem até o início – e possivelmente meados – de abril em grande parte do estado.
De acordo com o meteorologista Ruibran dos Reis, do Instituto Climatempo, os modelos indicam chuvas acima da média histórica em praticamente todas as regiões mineiras, mas sem sinal, até o momento, de um novo evento extremo como o registrado em fevereiro.
Fevereiro histórico e devastador
O mês de fevereiro entrou para a história recente de Minas. Em Belo Horizonte, a estação convencional do Santo Agostinho registrou 368,3 milímetros em fevereiro de 2026, 107% acima da média histórica de 177,7 mm. Na Pampulha, o acumulado foi de 308,2 mm.
Em Juiz de Fora, na Zona da Mata, o volume chegou a 752,4 mm, cerca de 342% acima da média de 170,3 mm. O temporal iniciado em 23 de fevereiro deixou 72 mortos e devastou cidades da Zona da Mata. Só em Juiz de Fora, 8.584 pessoas ficaram desabrigadas ou desalojadas, e a Defesa Civil registrou 2.666 ocorrências.
Outros municípios também registraram volumes muito acima da média em fevereiro. Juiz de Fora liderou com 752,4 mm (média de 170,3 mm), um desvio de 342%. Em Belo Horizonte, foram 368,3 mm (177,7 mm), 107% acima do normal.
Januária teve 352,1 mm (121,5 mm), alta de 190%; Lavras, 343,5 mm (178,2 mm), 93% acima; e Itamarandiba, 307,6 mm (118,1 mm), 160% superior à média.
Araxá registrou 288 mm, cerca de 27% acima do esperado. Em Araçuaí, choveu 284,8 mm (79,3 mm), um aumento de 259%, e em Montes Claros, 256,4 mm (104,5 mm), 145% acima da média histórica.
No Norte de Minas, os temporais também causaram alagamentos e danos em Montes Claros e atingiram cidades vizinhas como Bocaiuva, Francisco Dumont e Juramento.
O que esperar de março?
A média de precipitação para março em Minas, segundo Ruibran, gira em torno de 140 mm. Para este ano, a expectativa é de volumes acima do normal, mas longe dos extremos registrados em fevereiro. “Vai ultrapassar a média, mas não em volumes iguais aos que aconteceram, por exemplo, em Juiz de Fora, que chegou a quase quatro vezes o esperado para todo o mês. Isso não”, explicou.
De acordo com o meteorologista, a tendência é de acumulados entre 30% e 40% acima do esperado. “Vai ter mais ou menos na faixa de 30% a 40% acima do esperado”, afirmou. As regiões com maior probabilidade de registrar esses índices são o Triângulo, as regiões Central e Sul, além da Zona da Mata e do Leste do estado.
Uma frente fria prevista para avançar pelo litoral do Sudeste nos próximos dias deve reforçar as instabilidades. O sistema deve organizar áreas de chuva principalmente nas regiões Sul, Central, Zona da Mata, Leste e Nordeste de Minas, com possibilidade de pancadas moderadas a fortes e formação de núcleos isolados mais intensos.
“Os modelos de previsão climática estão mostrando que nós vamos ter chuvas acima da média histórica em praticamente todas as regiões do estado”, explicou o meteorologista do Climatempo. Ele ressalta, porém, que não há indicativo da formação da Zona de Convergência do Atlântico Sul, fenômeno associado a episódios prolongados e volumosos de precipitação.
“O que os modelos estão prevendo é calor, com disponibilidade de umidade e formação de pancadões de chuva à tarde e à noite. Pode haver alagamentos pontuais, mas não há, neste momento, sinal de inundações generalizadas como as que ocorreram no fim de fevereiro”, afirmou.
O meteorologista também destacou que, diferentemente de outros anos, não houve veranico, período de vários dias consecutivos sem chuva dentro da estação chuvosa. O fenômeno costuma ocorrer entre janeiro e fevereiro e pode durar até cerca de 20 dias.
“Nós tivemos alguns dias sem chuva no início de janeiro, mas o veranico não se definiu neste ano”, explicou.
Segundo ele, historicamente o período chuvoso em Minas começa em outubro e se estende até meados de abril. Em alguns municípios do Norte e Nordeste do estado, a estação termina em março, mas, de forma geral, o estado segue com chuvas até a metade de abril.
Março é tradicionalmente um mês de temperaturas elevadas e pancadas isoladas no fim da tarde e início da noite, especialmente nas regiões Central, Sul, Triângulo Mineiro e Zona da Mata. Esse padrão deve se repetir em 2026.
O outono começa oficialmente no dia 20 de março, às 11h45, horário de Brasília. A partir daí, há redução gradual da radiação solar e da instabilidade atmosférica, o que tende a diminuir o volume de chuva no fim do mês e ao longo de abril.
Em Belo Horizonte, a primeira semana de março deve ter tempo predominantemente nublado e temperaturas estáveis, com máximas em torno de 30°C e mínimas entre 15°C e 17°C, conforme o Inmet.
Apesar do histórico recente de devastação, a expectativa é de um março chuvoso, porém dentro de um cenário mais típico da estação. As “águas de março”, portanto, não devem encerrar imediatamente o período chuvoso em Minas, mas também não indicam, até agora, a repetição de um episódio extremo como o que marcou fevereiro de 2026.
Fonte: Estado de Minas

